Walyson Oliveira
União do Norte ou Gilmarlândia?
Enquanto isso, União do Norte espera.
União do NortePor Walyson S. Oliveira
No Brasil, município não nasce. É gestado. E, dependendo do sobrenomeenvolvido, o parto é rápido. Esta semana veio à tona a proposta de criação deum novo município no norte de Mato Grosso: “Nova Aliança do Norte”. Ainiciativa é atribuída ao empresário Erai Maggi, um dos maiores produtores desoja do país, ligado ao Grupo Bom Futuro.
Nos bastidores, chegou-se a cogitar um nome ainda mais simbólico:“Gilmarlândia”, em referência ao ministro do STF Gilmar Mendes, mato-grossense,nascido em Diamantino, cidade próxima à área pretendida.
Não se trata aqui de ataque pessoal. Trata-se de critério. Porque,quando um gigante do agronegócio articula, a máquina pública ganha pressa.Estudos aparecem. Apoios surgem. A engrenagem gira.
Enquanto isso, União do Norte espera.
Umacomunidade que já existe
União do Norte é distrito de Peixoto de Azevedo. Não nasceu em reuniãoclimatizada. Nasceu nos anos 1990, da chegada de pequenos produtores,sitiantes, comerciantes e trabalhadores que enfrentaram estrada de chão,isolamento e ausência de infraestrutura. Transformaram mata em produção.Produção em comércio. Comércio em comunidade.
Hoje, o distrito reúne cerca de 17 mil habitantes, segundo estimativasdo IBGE. Tem economia ativa, escolas, postos de saúde, comércio estruturado. Éreconhecido como o maior assentamento da América Latina.
Sua área de influência abrange propriedades produtivas, assentamentose, inclusive, unidades da próprio Grupo Bom Futuro. Ou seja: a força econômicajá está ali. O que falta é autonomia política.
A geografiatambém vota
União do Norte está às margens da MT-322 (antiga BR-080), eixoestratégico para o escoamento da produção do Norte de Mato Grosso e potencialcorredor de integração com outras regiões do país. Com investimento adequado, arodovia pode reduzir custos logísticos, ampliar mercados e fortalecer pequenose médios produtores.
Mas distrito não define prioridade orçamentária. Distrito pede. Municípiodecide. Essa é a diferença.
Desenvolvimentoque inclui — ou rearranja?
Outro ponto ignorado é o potencial turístico. A região é rota de acessoao Parque Indígena do Xingu, uma das mais relevantes reservas indígenas dopaís. Com planejamento e respeito, seria possível estruturar turismo de basecomunitária, fomentar o artesanato local e criar parcerias responsáveis comcomunidades indígenas.
Mas isso exige gestão própria. Projeto de longo prazo. Política públicadirecionada. E isso, novamente, depende de autonomia.
A perguntaincômoda
Quando um grande empresário articula a criação de um município, oprocesso acelera.
Quando pequenos produtores reivindicam emancipação de um distritoconsolidado, o processo emperra.
Qual é ocritério?
Interessepúblico ou conveniência privada?
Planejamento regional ou influência política?
O agronegócio é parte central da economia mato-grossense. Ninguém sériodiscute isso. O que se discute é outra coisa: quem define o mapa do estado?
Se o redesenho territorial atender apenas à capacidade de lobby,estaremos institucionalizando a desigualdade geográfica.
União doNorte já cumpre os requisitos
A emancipação não é capricho. É argumento técnico: base populacionalconsolidada, economia ativa, localização estratégica, potencial logístico, vocaçãoturística e identidade comunitária.
União do Norte existe. Funciona. Produz. Cresce. Não precisa serinventada.
Municípios deveriam nascer de critérios técnicos e necessidade social —não de homenagens políticas ou rearranjos circunstanciais. União do Nortenasceu da poeira da estrada, lama e do suor da lavoura. Se há justiçaterritorial em Mato Grosso, ela começa reconhecendo quem construiu comunidadeantes de conquistar influência.
Porque quando o poder acelera para alguns e freia para outros, o mapapode até mudar de nome, mas a desigualdade continua no mesmo lugar.







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