‘Morei na rua e hoje faturo R$ 2 mi adestrando cães’

Aos nove anos, após desentendimentos com o pai, Cleber Santos fugiu de casa em Porto Seguro (BA) para morar com a mãe em Ribeira de Pombal (BA). Tempos depois, a mãe foi para São Paulo, mas ele não se adaptou à vida em família. Aos 14 anos, foi morar nas ruas, adotou o vira-lata Grafit e fez bicos em petshop.

Foi do seu amor pelos animais que surgiu a ideia para um negócio. Em 2010, com 21 anos, Santos criou a Comportpet, uma empresa de adestramento e hospedagem de cachorros. Faturou R$ 2 milhões em 2021, com lucro de 45%.

“Não tinha uma boa estrutura familiar. Quando tinha 14 anos, comecei a passar alguns dias nas ruas. Voltava para casa de vez em quando, até um dia que não voltei mais”, diz Santos, 33.

Ele vivia na região da Sé. Foi ali que conheceu o vira-lata Grafit. O cão já vivia entre os moradores de rua, mas se apegou a Santos. Os dois se tornaram inseparáveis e até dividiam a mesma marmita. “O Grafit foi responsável por desenvolver a minha empatia e amor pelos animais”, declara. O cão morreu em 2010.

Experiência com adestramento

Até os 16 anos, Santos fez diversos bicos nas ruas, como ajudar a descarregar caminhões. “Eu era cara de pau e tinha boa comunicação. Então, conseguia todo tipo de bico, em troca de alguns agrados que poderiam ser R$ 10, R$ 20”, diz.

Um dos bicos foi em um pet shop em reforma em Taboão da Serra (SP). Santos saiu das ruas e dormia no local para tomar conta dos materiais da obra; em troca recebia abrigo e comida para ele e para o Grafit. Quando a obra terminou, Santos continuou fazendo bicos no local, como varrer o chão e pesar a ração.

“Por observação, aprendi tudo sobre a operação do pet shop, inclusive a parte de banho e tosa. Aos 17 anos, consegui uma vaga para dar banho nos pets”, diz.

Trabalhou no canil do Exército

Por morar no pet shop e ter comprovante de residência, Santos conseguiu se alistar ao Exército em 2008, aos 18 anos. Nos primeiros seis meses, ele passou pela formação geral das funções do quartel, em Osasco (SP), e só ia a cada 15 dias visitar o Grafit na pet shop.

Santos começou a visitar mais o canil do Exército para observar o treinamento dos cães. Em pouco tempo, foi convidado para trabalhar ali.

“Como não podia mais ver o Grafit com frequência, estar no canil era uma forma de conviver com os cães dali e aprender com eles”, diz.

Seu período no Exército durou cinco anos, até meados de 2013. Nesse tempo, Santos fez diversos cursos profissionalizantes na área, até os mais avançados de adestramento, como treinar cães para farejamento, trabalho de busca e apreensão e guarda de autoridades.

Santos diz que conciliava o seu trabalho no quartel com o serviço de cuidar de cães em domicílio. “Todo o dinheiro que ganhava, investia em mais cursos, para me especializar cada vez mais na profissão.”

Alguns cursos foram realizados nos EUA, Canadá e Alemanha, que lhe conferiram o título de especialista em comportamento animal.

Hotelzinho de cães era em seu apartamento

Em 2010, ainda morando no Exército, ele criou a empresa Comportcão, com investimento inicial de R$ 20 mil. Esse dinheiro veio do próprio bolso, dos trabalhos que fazia cuidando e adestrando cães. Com a empresa, fazia atendimento para clientes a domicílio.

Depois de sair do exército, Santos passou a cuidar dos cães em seu apartamento alugado, com serviço de hotelzinho. “Cabiam sete cães”, diz. Na época, ele cobrava de R$ 15 a R$ 20 a diária por cachorro.

Empresa muda de nome e de local

Em 2014, Santos fez mais cursos para atender outros pets, como gatos e aves. Mudou o nome da empresa para Comportpet e transferiu o atendimento para uma casa maior, onde cabiam 30 animais. Em 2016, mudou-se para a atual sede da Comportpet: uma casa no Jabaquara, em São Paulo, com capacidade para 120 cães. O atendimento de gatos e aves é apenas a domicílio.

A Comportpet oferece serviços de creche (o cão passa o dia), de hotel (o cão pernoita) e de adestramento. No total, a empresa atende 3.000 cães por ano.

O carro-chefe é o adestramento, que custa R$ 2.000 por mês, em média, e dura de quatro a seis meses. No serviço de creche, a diária custa R$ 100. No hotel, a diária varia de R$ 150 a R$ 200, dependendo da época do ano.

Franquia custa R$ 15 mil

A empresa cresceu e lançou neste ano a franquia “slim” (somente de adestramento), com investimento inicial de R$ 15 mil. Em 2023, será lançada a franquia “day care e hotel”, que exige ponto fixo. O investimento será de R$ 350 mil (valor pode mudar de acordo com a região).

Em 2021, Santos criou a Universidade Comportpet, com 12 cursos voltados a donos de negócios do mercado pet para melhorar a gestão e o atendimento aos animais e tutores. São aulas online avulsas, híbridas ou presenciais, que passam por vários temas, como banho e tosa, adestrador, gestão administrativa e marketing.

Buscar inovações é essencial para não ser engolido

Jane Malaguti, consultora de negócios do Sebrae-SP, diz que Santos soube desenvolver sua habilidade e talento para empreender. “Ele apanhou tanto ao longo da trajetória que desenvolveu capacidade de enxergar potencial. Teve visão de negócios e quis ir além, não ser somente um cuidador de cachorros, mas um empreendedor do setor de animais de estimação”, afirma.

A consultora diz, no entanto, que o mercado pet é muito competitivo. “Por isso, é importante sempre buscar inovações para se diferenciar, senão, o mercado pode engolir o negócio.”

Sobre a expansão da empresa para franquias, Jane diz que o modelo precisa ser muito bem estruturado. “Ele não pode perder qualidade nos serviços que oferece. Afinal, é a marca dele que está em foco. Precisa ser um negócio para alavancar a empresa.”

Fonte UOL

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