Rei dos Stonks, no Netflix, é a novidade do gênero “startups enganadoras” – 12/07/2022

Não é mero acaso o lançamento de mais uma série sobre a ascensão meteórica e a queda vertiginosa de uma startup aparentemente “disruptiva”.

A bola da vez é Rei dos Stonks, produção do Netflix inspirada na história da fintech alemã Wirecard. A empresa, que se propunha a revolucionar os serviços de pagamentos online e despontava como a rival europeia do Vale do Silício, acabou colapsando em junho de 2020.

Na ficção, a narrativa gira em torno de um ambicioso profissional de TI que peleja para domar os excessos do CEO fanfarrão e atrair investidores, custe o que custar. Na vida real, a trajetória da fintech acumulou fraudes da ordem de 2 bilhões de euros, denunciadas pelo jornal inglês Financial Times.

O cardápio variado de crimes, de maquiagens contábeis à lavagem de dinheiro da indústria pornográfica e do tráfico de drogas, reservou destinos diferentes aos executivos da linha de frente da Wirecard. Enquanto o presidente foi parar na cadeia, seu braço direito fugiu espetacularmente para Belarus – e continua sumido.

As sagas de empresários gananciosos e inconsequentes, principalmente do mercado financeiro, sempre despertaram a atenção dos grandes estúdios de cinema. Estão aí os sucessos do mais ou menos recente O Lobo de Wall Street (2013) e do não tão recente assim Wall Street (1987) que não nos deixam mentir.

Agora é a vez do glamouroso ecossistema das startups entrar no radar das principais plataformas de streaming. Além de Rei dos Stonks, só no primeiro semestre deste ano já foram ao ar WeCrashed, sobre o excêntrico fundador da rede de escritórios compartilhados WeWork, e Super Pumped – sobre Travis Kalanick, o polêmico ex-CEO da Uber.

Vacas gordas, vacas magras

Existe uma explicação para essa demanda por séries sobre startups que remete a uma importante mudança de maré na economia digital, materializada pela atual onda de demissões em massa no mundo inteiro.

Indo direto ao ponto, o dinheiro secou e essas empresas finalmente começaram a se preocupar com aquele detalhe básico do capitalismo: o lucro. Além disso, a genialidade de empreendedores antes considerados visionários passou a ser colocada em xeque.

Aliás, no jargão do mercado financeiro, essa é a origem do termo “stonk”: uma ideia inicialmente excelente que, com o passar do tempo, não se mostra tão boa assim.

Para entender por que isso aconteceu, é preciso voltar à época das vacas gordas, iniciada após a Grande Recessão de 2008. Em resposta à crise financeira, os bancos centrais dos países desenvolvidos levaram os juros a níveis historicamente baixos para reaquecer a economia.

Isso levou investidores a apostar suas fichas não mais em títulos públicos que rendiam mixaria, mas em startups com ideias supostamente inovadoras que prometiam retornos tentadores no futuro, mesmo que distante.

Consolidou-se, então, um modelo de negócios entre essas novas empresas de tecnologia baseado na ideia de torrar dinheiro para crescer, dominar o mercado e, dessa maneira, atrair mais investidores. Fechar o balanço financeiro no azul passou a ser secundário.

Porém, a ressaca da pandemia e da Guerra da Ucrânia veio acompanhada da disparada da inflação e da subida dos dos juros no mundo inteiro. Uma nova crise mundial aparece no horizonte e, por isso, investidores estão decididos a cobrar retornos de prazo mais curto. Uma correção de rota no mercado das startups está em curso e o espaço para amadores, afunilando.

Seita corporativa

Há outro efeito colateral dessa cena das startups que, assim como em outras séries do gênero, também dita o ritmo de Rei dos Stonks: a criação de um ambiente de trabalho festivo e “yuppie”, embalado por um líder de pegada messiânica.

É como se o CEO não estivesse à frente de uma empresa, mas de uma espécie de seita. Além de saber cativar potenciais investidores com apresentações à la Steve Jobs, ele precisa ser especialmente hábil em incutir na cabeça de seus funcionários a ideia de que a tecnologia oferecida por sua startup tem uma missão muito nobre, capaz de mudar o mundo.

Mas é justamente aí que Rei dos Stonks peca. Ao exagerar nas tintas da caricatura, em nome de um efeito cômico para lá de questionável, a série desperdiça a oportunidade de contar de maneira mais competente a história do mais recente escândalo financeiro da Europa.

Definitivamente, a produção alemã não é imperdível. Porém, ajuda a compreender estes estranhos tempos do cada vez mais questionado “capitalismo de plataforma”.

Fonte UOL

Entre no grupo do Olhar Cidade no WhatsApp e receba notícias em tempo real CLIQUE AQUI
Já assistiu aos nossos novos vídeos no
YouTube ? Inscreva-se no nosso canal!